Na Liga, Betão deixa de ser “Betão do Corinthians”

Por Luciano Borges
Betão não é mais o “Betão do Corinthians”. O jogador formado na base e atleta do clube por quase sete anos, é titular do Dínamo de Kiev que, nesta terça-feira, enfrenta o Fenerbahce no Sükrü Saraçoglu Stadium, em Istambul. Ele é o único titular que não foi substituído em todas as partidas que disputou até aqui na temporada (15).
O zagueiro, que vem atuando como lateral-direito, conta para o Blog do Boleiro que os ucranianos apenas perguntam sobre a passagem pelo Santos, no primeiro semestre desse ano.
E pede até que a imprensa brasileira mude a maneira de tratar os boleiros, relacionando o nome deles com a primeira equipe onde começaram. “O jogador atua bem em outros clubes, mas insistem em lembrar somente onde ele começou”, afirmou.
Na casa nova, em Kiev, Betão anda impressionado com o futebol ucraniano e a estrutura do novo clube. Ele mora com a mulher, Priscila, e um primo, Caio.
A conversa com o novo lateral do Dínamo foi por telefone. Betão estava animado com a estréia do time – líder do campeonato ucraniano – na Liga dos Campeões, quando empatou com o Arsenal em 1 a 1, depois de estar na frente até quase o final do confronto.
Blog do Boleiro – É verdade que você acompanhou o sorteio dos grupos da Liga dos Campeões com bloco na mão?
Betão – Acompanhei sim. Estava ansioso, apreensivo. É minha primeira Liga. Quando via os jogos da Liga, sempre achei que era tudo muito charmoso e elegante. E, saber disso tudo fez com que eu anotasse os grupos num bloco de papel.
E o grupo do Dínamo acabou sendo um dos mais difíceis, com o Arsenal, Porto e Fenerbahce.
É engraçado, não é? Nosso objetivo inicial era chegar em terceiro na chave para garantir vaga na UEFA no ano que vem. Mas depois da boa partida que fizemos contra o Arsenal, a visão do pessoal mudou.
Qual o objetivo agora?
A gente viu que dá para aspirar algo mais. Nós deixamos escapar a vitória sobre o Arsenal no final do jogo. Dominamos boa parte da partida. Até porque eles não saíram em cima.
No primeiro tempo, você jogou mais como lateral ofensivo?
Acabei indo pra frente mesmo. O Arsenal começou o jogo de forma defensiva, lá atrás. Fui mesmo.
E o Fenerbahce?
Vai ser uma pedreira. O jogo é fora. Eles devem sair em cima. Perderam o primeiro jogo para o Porto (3 a 1) e precisam se recuperar.
Pelo jeito, você vai precisar de uma meia hora para a resenha antes do jogo.
(risos) Verdade, verdade. Eu estava fazendo as contas. Lá estão o Alex, Deivid, Edu Dracena, Aurélio, Roberto Carlos e até o Diego Lugano, que é uruguaio, mas jogou no Brasil. Ah, e tem o Maldonado também… Antes da partida, vou cumprimentar um monte de gente. Mas não daí dar tempo de resenhar muito não.
Você acha que o Fenerbahce ainda joga com estilo brasileiro?
Acho. O técnico deles (o espanhol Luis Aragonés) está chegando agora e ainda deve haver a influência da passagem do Zico por lá. Mas o próprio Aragonês gosta de jogo com posse de bola, troca de passes. É parecido com o estilo do Brasil.
O técnico do Dínamo (Yuri Semin) pergunta para você sobre os brasileiros que são adversários?
Pergunta, mas é sempre de jogo a jogo. Agora, rapaz, o que tem de brasileiro aqui na Ucrânia… Tem brasileiro pra caramba! Cada time tem um perdido. E a maioria, quase todos, eu nunca tinha visto.
Por exemplo?
No Metalist tem um atacante, o Coelho (22 anos, começou no América-MG em 2002 e jogou na Alemanha e Holanda), que jogou no Flamengo, mas não lembrei dele. No Arsenal, aqui de Kiev, tem três atletas novos para mim: o Alan (20 anos, começou no Matsubara-PR e está na Ucrânia há três temporadas), o Josemar Paraíba (27 anos, jogou no Fluminense e no futebol alemão) e um menino do Vasco, o Júnior.
Você tem acompanhado o futebol brasileiro?
Tenho. Assisto os canais internacionais da Globo e da Record. Acompanho o Campeonato Brasileiro. Mas estou aqui só há três meses. Nem deu para sentir saudade ainda. Sinto falta da família, dos amigos, algumas comidas e só.
Tem falado com o pessoal do Santos?
Tenho sim. Há uns dias, conversei com o Molina, com quem tenho uma amizade boa. Acho que o Santos não cai, não. Saiu da zona de rebaixamento no tempo oportuno.
Tem acompanhado o Corinthians?
Tenho sim. O Corinthians já está na Série A do ano que vem. Se não garantiu matematicamente, já pôs os dois pés lá. Espero agora que cada um assuma sua parcela de responsabilidade do que ocorreu no ano passado e aprenda a lição para não cometer de novo os mesmos erros.
Você se refere a quem?
A todos: dirigentes, jogadores, pessoal que está lá e que participou da queda em 2007.
Você ainda é o Betão do Corinthians?
Aqui não. Aqui me relacionam e perguntam sempre do Santos. No Brasil ainda falam porque eu comecei no Corinthians e joguei lá muitos anos. Mas acho que este tipo de visão deveria acabar. No Brasil, a gente fica com a imagem ligada ao primeiro clube que jogamos. Mas a realidade atual é diferente. Ninguém fica falando que o Ronaldo Fenômeno é o Ronaldo do São Cristóvão. Ele não jogou bem apenas lá.
Você precisou “dobrar” a torcida do Santos, não?
Quando cheguei lá, disse logo na coletiva que eu sabia que vinha de um clube que é grande rival do Santos. Mas disse que estava lá para trabalhar pelo Santos e que não tinha nada a ver eu ter começado no Corinthians. Quando saí, acho que meu trabalho foi reconhecido.
O curioso é que o Santos lançou o “Betão lateral”.
Pois é. O Dínamo mandou uma pessoa me observar pensando em contratar um zagueiro. Aí ele me viu atuando na Vila Belmiro como lateral. Acho que eles devem ter consultado o Correa (volante, ex-Palmeiras, que está no Dínamo a três temporadas) e ele informou que eu sou zagueiro.
Mas foi o Leão que descobriu sua nova função?
Quando subi para o profissional do Corinthians, o Vanderlei Luxemburgo me colocou na lateral-esquerda numa partida contra o Internacional lá em Porto Alegre. Depois, em 2003, o Geninho me escalou na lateral-direita em duas partidas. Mas foi na Libertadores deste ano, com o Leão que eu fui adaptado lá.
E você vem jogando de lateral desde que chegou no Dínamo?
Não. Durante a pré-temporada na Áustria, em junho, o Semin me escalou como zagueiro-central. Mas já no segundo dos cinco amistosos, fui para a lateral. Só entrei no meio da defesa durante uma partida. Mas aqui o lateral quase não sobe para o ataque. Aqui, eles jogam com duas linhas de quatro e o ala fica bem fixo.
Está gostando de Kiev?
Muito. É uma cidade bonita, com um centro bonito, bons restaurantes. O melhor é que ainda não vi o frio que tantos falam. Cheguei aqui e levei 30 graus centígrados na cabeça. Agora esfriou um pouco, caiu para uns 10 graus. Mas os caras aqui dizem que o pior é em dezembro e janeiro. Mas neste período, a gente está de férias e na pré-temporada que é feita em lugar mais quente.
E o Dínamo?
Estou contente com tudo aqui. É outra realidade do futebol. O pessoal falava mal do futebol da Ucrânia, mas cheguei aqui e vi o contrário. Foi uma surpresa positiva. O Dínamo tem um CT com oito campos, tem campo coberto, uma estrutura muito boa.
Quais seus objetivos daqui para frente?
Primeiro, passar para a segunda fase da Liga dos Campeões. Depois, quero permanecer um longo período aqui na Ucrânia ou em outro país da Europa. Não tenho intenção de voltar para o futebol brasileiro. Quero fazer uma carreira na Europa.





