Por Luciano Borges
Nilmar fica no Villareal. O atacante confirmou que clubes do Brasil conversaram com seu empresário, Orlando da Hora, para tentar repatriá-lo. “Eles quiseram saber se o Villareal aceitaria me liberar e como estava minha situação”, disse ao Blog do Boleiro, por telefone.
Embora achasse tentador voltar (“Quem não gostaria?”) o atacante decidiu permanecer na Espanha, mesmo sabendo que seus concorrentes a uma vaga na seleção brasileira que vai à Copa do Mundo de 2010 estão agora no futebol brasileiro. “Estou acompanhando. Está todo mundo aí”, disse, enquanto passeava com a mulher, Laura, em Barcelona.
São Paulo e Cruzeiro foram os dois clubes que apresentaram mais interesse em ter Nilmar. O Villareal mostrou pouca disposição em emprestar o atleta que, por sua vez, levou em conta alguns bons motivos para não retornar: 1) esta é sua segunda investida no futebol europeu e ele quer jogar numa equipe maior e 2) no final de julho ou começo de agosto, ele vai ser pai pela primeira vez e acha que a tranqüilidade onde mora vai ajudar muito nos primeiros dias.
O casal vive hoje em Banicàssim, um município litorâneo que fica na Costa de Azahar, cerca de meia hora de distância de Valência. “Aqui é tranquilo demais. E a gente pode ir de carro a Barcelona, que fica cerca de 200 quilômetros daqui”, afirmou o jogador.
A seguir, a conversa na íntegra:
Blog do Boleiro – Por que você não quis levar adiante as negociações?
Nilmar – Houve uma consulta sobre a possibilidade de voltar e jogar aí. Acabei dizendo para o Orlando (da Hora) que prefiro ficar. Claro que gostaria de jogar no Brasil. O Campeonato Brasileiro é o mais disputado do mundo. Aí, você chega na última rodada e não sabe quem vai ser o campeão. Mas estou aqui há sete meses apenas. Quero me firmar mais.
Você está bem?
Estou. Está tranquilo. A torcida aqui é calma até demais. Nesse ano, estou tendo uma sequência. No ano passado foi mais complicado. Foram muitas partidas com a seleção. Aí eu chegava aqui em cima da hora dos jogos, o treinador me deixava fora. Agora estou jogando direto. Nos últimos quatro, marquei três gols. Mesmo ficando fora de algumas partidas no ano passado, consegui marcar seis gols em 11 jogos na Liga (Campeonato Espanhol). Acho que está bom.
O Villareal está no meio de uma crise?
O técnico (Ernesto Valverde) caiu depois da derrota para o Osasuna. Eles anunciaram o treinador do Villareal B (Juan Carlos Garrido). O clube é o único que tem dois times no Espanhol. E o “B”está em quarto lugar na segunda divisão. Estamos em décimo lugar, mas o time é bom e está melhorando. Temos vários jogadores de seleção. Quatro são da Espanha, dois do Uruguai e tem o Giuseppe Rossi, que joga na seleção da Itália.
Enquanto isso, os atacantes Fred, Adriano, Vágner Love e Robinho apostam no futebol brasileiro para disputar a Copa do Mundo.
Estou acompanhando. Está todo mundo aí. O Brasil está bom para isso, investindo na contratação dos jogadores. A briga por uma vaga na seleção vai durar até o último momento. Tomara que eu consiga estar lá.
Como você pretende manter a atenção do técnico Dunga?
Não posso amolecer, né? Tenho que jogar meu melhor aqui e fazer gols. Isso dá notícia.
Você já se adaptou ao futebol espanhol?
É um futebol diferente, mas estou me sentindo bem. Aqui se treina menos durante as competições. Os campos são menores, tem menos espaço, o jogo é sempre muito rápido porque eles molham o gramado. E se usa muito a bola aérea.
O jogo passa por cima de você?
Que nada! Já fiz três gols de cabeça. Fiz gol de cabeça até na seleção.
Alguma vez, nas últimas convocações, você ouviu do Dunga que alguém tinha lugar cativo?
Não. Ele sempre foi bem claro: o jogador está garantido somente naquela convocação. O atleta é que vai se fazer necessário, vai se garantir. A gente sabe que alguns atletas já estão na seleção há tempo e eles têm mais chances de ir à Copa do Mundo. Mas ele sempre deixa claro que é preciso aproveitar cada convocação. Na seleção, tudo passa muito rápido.
Nenhuma garantia, então?
Nada. Todo mundo tem que correr atrás. Para mim, foi bom. Acho que aproveitei bem as chances que apareceram com a suspensão do Luis Fabiano, a contusão do Robinho. Mas não dá nenhuma garantia. Tenho que fazer meus gols e jogar bem.
Com tantos concorrentes jogando no Brasil, você não teme ser esquecido?
Eu sei que, estando no Brasil, a mídia fica toda em cima e vai falar mais deles. Mas, nesse sentido, eu estou tranquilo. Até porque, se for por aí, 90 por cento da seleção é formada por atletas que estão na Europa. Não estou em um país que é pouco notado. Depois do Brasil, a Espanha tem a melhor seleção do mundo. O Dunga já mostrou que acompanha os jogadores em vários países. Ele chamou atletas que estavam na Rússia, na Ucrânia, então eu sei que ele vai ficar de olho.
Quais seus planos para a carreira, então?
Quero jogar aqui. Tenho contrato de cinco anos e não penso em voltar. Quero me fixar, ir bem e, quem sabe, me transferir para um clube maior na Europa. O Villareal é um clube que vende. Estou numa sequência boa, fazendo bons jogos, marcando gols e isso sempre ajuda. Mas o fundamental é ir à Copa do Mundo. Depois, a gente vê o que acontece.
Nada de Brasil?
Não vou dizer que não, porque a gente nunca sabe. Mas estou aqui há apenas sete meses e está sendo bom. Falei para o Orlando (da Hora) que não acho que vá me preparar melhor no Brasil do que aqui, se quiser disputar a Copa do Mundo. Conversei ontem com o Róger (meia) e ele me falou que está indo para o Cruzeiro. Acho legal.
Não sente falta do Brasil?
Claro que sinto. Não tem nada igual ao Brasil. Passei os dois últimos anos em Porto Alegre, onde moram os familiares da Laura e onde passei ótimos momentos no Internacional. Sinto falta da torcida. Aqui, o estádio fica cheio e os caras só ficam batendo palmas. É diferente. Mas estou bem. O time do Villareal é que precisa melhorar um pouquinho.
Qual o lado bom de jogar no Submarino Amarelo?
Existe uma coisa que é muito legal e tem a ver com a estrutura daqui. A gente vai jogar fora, em Roma – por exemplo – e a família pode ir no mesmo avião, fica no hotel, volta junto. Aqui se concentra muito menos do que no Brasil. Para criar um filho é muito melhor. Aqui eu treino de manhã e tenho a tarde toda livre para descansar, ficar em casa. Moro numa cidade de praia que, depois do verão, é muito calma.
Treinar menos não é um problema?
Deixe-me explicar. Aqui, como os clubes têm um mês inteiro de pré-temporada, ela é muito puxada. Depois, durante a disputa dos Campeonatos, ele fazem manutenção. Eu sou um caso diferente: cheguei aqui e não tive férias. Então tenho que manter meu condicionamento. Aliás, estou sem férias há um ano e meio. E quero ficar dois anos assim. Porque significa que disputei a Copa do Mundo (risos…).
Você acompanha os campeonatos estaduais?
Claro. Assisti o clássico entre Corinthians e Palmeiras. Depois do jogo contra o Osasuna, saí correndo para ver na televisão. Foi um jogo bom, meu parceiro Edinho estava lá. Eu gostei muito de morar em São Paulo. Estou batendo palmas para o futebol brasileiro. Está bonito de ver. Fico agradecido aos clubes que mostraram interesse. Isso mostra que estou tendo reconhecimento. Mas pretendo ficar.
Última pergunta: porque você joga com a camisa 12?
É. Quando cheguei aqui só tinham dois números disponíveis: o três e o 12. Eu até pensei em pegar a 3. Seria legal fazer gols com camisa de zagueiro. Mas fiquei com a 12 mesmo.